sábado, 20 de agosto de 2011

O Evangelho Segundo o Espiritismo

I. Objetivo desta obra. 
As matérias contidas nos Evangelhos podem ser di­vididas em cinco partes: os atos comuns da vida do Cristo, os milagres, as predições, as palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja e o ensinamento moral.
Se as quatro primeiras partes foram objeto de con­trovérsias, a última permaneceu inatacável. Diante desse código divino, a propria incredulidade se inclina; é o territó-rio onde todos os cultos podem se encontrar, a bandeira sob a qual todos podem se abrigar, quaisquer que sejam as suas crenças, porque ela jamais foi o motivo das disputas religio­sas, levantadas sempre, e por toda a parte, por questões de dogma.(1) Aliás, se o discutissem, as seitas

nele teriam en­contrado sua própria condenação, porque a maior parte se

 apega mais à parte mística que à parte moral, que exige a  reforma de si

mesmo.
(1) Dogma: ponto fundamental e indiscutível de uma doutrina reli­giosa ou de qualquer doutrina ou sistema; proposição apresentada e aceita como incontestável e indiscutível. Na Igreja Católica Apostólica Romana, é o ponto de doutrina já por ela definido como expressão legítima e necessária da sua fé. (Nota da Tradutora.)


Para os homens, em particular, é uma regra de con­duta abrangendo todas as circunstâncias da vida privada ou pública, o princípio de todas as relações sociais fundadas sobre a mais rigorosa justiça; é, enfim, e acima de tudo, o caminho infalível da felicidade que há de vir, é levantar uma ponta do véu, que oculta a vida futura. É essa parte que será o objeto exclusivo desta obra.
Todo o mundo admira a moral evangélica, proclama a sua sublimidade e necessidade, mas muitos o fazem por confiança no que ouviram falar sobre ela ou pela fé em algu­mas máximas que se transformaram em provérbios; porém, poucos a conhecem a fundo, menos ainda a compreendem e sabem deduzir as suas consequências. A razão disso está, em grande parte, na dificuldade que a leitura do Evangelho apresenta: entendimento muito difícil para um grande nú-mero de pessoas. A forma alegórica, o misticismo intencio­nal da linguagem fazem com que a maioria o leia por desen-cargo de consciência e por dever, como lêem as preces, quer dizer, sem proveito. Os preceitos de moral, disseminados aqui e ali, misturados a grande quantidade de outras narrati­vas, passam despercebidos; torna-se, então, impossível compreendê-los no todo, e deles fazer o objeto de uma leitu­ra e de uma meditação distintas.
É verdade que foram feitos tratados de moral evan­gélica, mas a apresentação, em estilo literário moderno, reti­rou a singeleza primitiva que lhe dava, ao mesmo tempo, o encanto e a autenticidade. Ocorreu o mesmo com sentenças isoladas, reduzidas à sua mais simples expressão proverbi­al; são apenas preceitos que perdem uma parte do seu valor e do seu interesse, pela ausência de detalhes e das circuns­tâncias em que foram emitidos.
Para evitar esses inconvenientes, reunimos nesta obra os artigos que podem constituir, propriamente falando, um código de moral universal, sem distinção de culto. Nas cita­ções conservamos tudo o que era útil ao desenvolvimento da ideia, retirando apenas as partes estranhas ao assunto. Além disso, respeitamos, escrupulosamente, a tradução ori­ginal de Sacy ,(2)

assim como a divisão por versículos. Po­rém, em lugar de nos prendermos a uma ordem cronológica impossível, e sem vantagem real em semelhante assunto, as máximas foram agrupadas e classificadas metodicamente segundo sua natureza, de maneira que elas se deduzissem, tanto quanto possível, umas das outras. A relação dos núme­ros de ordem dos capítulos e dos versículos permite recorrer à classificação comum, caso seja necessário.
Esse seria, simplesmente, um trabalho material que, sozinho, teria apenas uma utilidade secundária; o essencial era colocá-lo à disposição de todos, pela explicação das pas­sagens obscuras e o desenvolvimento de todas as conse­quências, com vistas à sua aplicação às diferentes situações da vida. Isso é o que tentamos fazer com a ajuda dos bons espíritos que nos assistem.
Muitos pontos do Evangelho, da Bíblia e dos autores sacros em geral são incompreensíveis, alguns até parecem irracionais pela ausência de um meio que permita compre­ender o seu verdadeiro sentido. Esse meio de compreensão encontra-se integralmente no Espiritismo, como já puderam se convencer aqueles que o estudaram com seriedade, e como se reconhecerá, ainda melhor, mais tarde.
O Espiritismo se encontra por toda a parte na Anti­guidade e em todas as épocas da humanidade. Em todas as regiões acham-se vestígios dele nos escritos, nas crenças e nos monumentos; é por isso que, se a Doutrina Espírita abre novos horizontes para o futuro, também lança uma luz não menos elucidativa sobre os mistérios do passado.
(2) Sacy ou Saci: como ficou conhecido o escritor e teólogo Louis-Isaac Lemaistre,

 autor de uma célebre tradução francesa da Bíblia, que susci­tou violentas polêmicas.

Nasceu em Paris, em 1613 e desencarnou em Pomponne, em 1684. (N.T.)

 
Como complemento de cada preceito, juntamos al­gumas instruções escolhidas entre aquelas que foram dita­das pelos espíritos, em diversos países e por intermédio de diferentes médiuns. Se essas instruções saíssem de uma úni­ca fonte, poderiam sofrer uma interferência pessoal ou do meio em que foram dadas, enquanto que a diversidade das suas origens prova que os espíritos dão seus ensinamentos por toda a parte, e que, sob esse aspecto, não há ninguém privilegiado.(3)
 
Esta obra é para o uso de todo o mundo, nela cada um pode buscar os meios de adequar sua conduta à moral do Cristo. Além disso, os espíritas aqui encontrarão as apli­cações que mais especialmente lhes dizem respeito. Gra­ças às relações estabelecidas, de uma forma permanente, entre os homens e o mundo invisível, daqui em diante a lei evangélica, ensinada para todas as nações pelos próprios espíritos, não será mais letra morta, porque cada um a com­preenderá, e será incessantemente solicitado, pelos conse­lhos dos seus guias espirituais, a colocá-la em prática. As instruções dos espíritos são, verdadeiramente, as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los para a prática do Evangelho.
(3) Nota de Kardec: Poderíamos, sem dúvida, dar sobre cada assun­to um número

maior de comunicações obtidas em inúmeras outras cidades e Centros Espíritas além

dos que citamos, mas devemos, antes de tudo, evitar a monotonia das repetições

inúteis, e limitar nossa escolha àquelas que, pela es­sência e pela forma, combinam

mais especialmente com o plano desta obra, reservando, para publicações posteriores,

as que não puderam ser aqui incluídas.

Quanto aos médiuns, evitamos nomeá-los; na maior parte, foi a pe­dido deles mesmos

que não foram designados, portanto não convinha fazer exceções. Aliás, os nomes dos

médiuns não teriam acrescentado nenhum va­lor à obra dos espíritos, isso seria apenas

a satisfação do amor próprio com a qual os médiuns, verdadeiramente sérios, não se

preocupam de modo ne­nhum; eles compreendem que, sendo o seu papel puramente

passivo, o valor das comunicações não realça em nada o seu mérito pessoal, e que

seria infan­til tirar vantagem de um trabalho de inteligência ao qual só prestaram um

concurso mecânico.

O Evangelho Segundo o Espiritismo - Allan Kardec, Paris, 1866

Tradução de Albertina Escudeiro Seco

Primeira Edição de Bolso

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